IA como parceira de raciocínio: caminhos para uma matemática mais inclusiva

Quando a inteligência artificial entra em uma atividade matemática, ela não apenas acelera tarefas. Também influencia perguntas, representações e caminhos de investigação. O desafio é transformar essa presença em aprendizagem, com mediação humana, acessibilidade e responsabilidade.

Este texto nasceu de uma apresentação que realizei em um projeto integrativo. A pergunta que orientou o trabalho continua aberta e necessária: e se a inteligência artificial fosse tratada como parceira de raciocínio, e não apenas como uma ferramenta que entrega respostas?

Conhecimento não é produzido no isolamento

Ao estudar educação matemática e tecnologia, encontrei na perspectiva de Marcelo Borba e Mónica Villarreal uma forma especialmente fértil de compreender essa relação. Em vez de imaginar primeiro uma pessoa pensando e, depois, uma ferramenta executando suas ordens, os autores propõem olhar para coletivos de seres-humanos-com-mídias.

Nessa perspectiva, lápis e papel, calculadora, computador, software de geometria e ambientes digitais não são recipientes neutros. Cada mídia favorece certas representações, impõe limites, reorganiza procedimentos e altera o tipo de pergunta que podemos formular. O conhecimento emerge das relações construídas nesse coletivo, como discutem Borba e Villarreal.

A questão mais interessante deixa de ser “o que a tecnologia faz por nós?” e passa a ser “como pensamos e aprendemos com ela?”.

Usar uma tecnologia não é o mesmo que pensar com ela

Essa diferença ajuda a reconhecer duas maneiras recorrentes de representar a relação entre pessoas e tecnologias. Em um estudo com pós-graduandos em Educação Matemática e Científica, Santos, Maia e Souto identificaram uma ancoragem mais utilitarista, ligada à suplementação das capacidades humanas, e outra voltada à simbiose entre atores humanos e não humanos.

Essas são formas de representação encontradas pelos pesquisadores, e não dois fundamentos originais da teoria. Ainda assim, a distinção é útil. Quando a tecnologia aparece apenas como atalho, prevalece a pergunta sobre velocidade e conveniência. Quando a relação é compreendida de forma mais integrada, observamos também como humanos e mídias se modificam mutuamente durante a produção do conhecimento. O artigo publicado em 2022 detalha essas ancoragens.

O que muda quando a inteligência artificial participa?

A inteligência artificial generativa acrescenta uma camada nova a essa discussão. Ela pode produzir explicações, sugerir exemplos, comparar estratégias, reescrever um problema e propor diferentes representações em poucos segundos. Ao responder, ela também influencia a direção da investigação e redistribui decisões dentro do coletivo.

Isso não significa atribuir à máquina uma inteligência igual à humana, nem aceitar suas respostas como autoridade. Significa reconhecer que sua participação interfere no que se torna possível pensar, testar e comunicar. Uma pesquisa recente sobre coletivos de humanos-com-IA generativa encontrou diferentes formas de distribuir agência e autoria em atividades de modelagem matemática — além de limitações na manipulação simbólica e na precisão numérica.

Portanto, a IA pode contribuir para formular hipóteses e ampliar possibilidades, mas seus resultados precisam ser verificados. Respostas convincentes podem conter erros; explicações bem escritas podem ocultar simplificações; e a facilidade de obter uma solução pode retirar do estudante justamente a parte da atividade em que o raciocínio se desenvolve.

Inclusão não nasce de um botão

Se a tecnologia reorganiza a aprendizagem, o modo como ela é projetada importa. Uma mesma ideia matemática pode ser explorada por linguagem algébrica, gráfico, descrição textual, áudio, manipulação de parâmetros ou Libras. Oferecer caminhos diversos pode reduzir algumas barreiras e permitir que mais estudantes participem da investigação.

Mas disponibilizar vários modos não garante, por si só, acessibilidade ou aprendizagem. É necessário verificar a qualidade das representações, a navegação por teclado, a compatibilidade com tecnologias assistivas, a clareza da linguagem e a correspondência entre o conteúdo matemático e sua tradução. Sobretudo, é preciso ouvir e envolver as pessoas que utilizarão a proposta.

Essa cautela também vale para o uso da IA. A orientação da UNESCO defende uma abordagem centrada no ser humano, com proteção da privacidade, validação ética e desenho pedagógico adequado à idade e ao contexto dos estudantes.

O professor continua sendo indispensável

Tratar a IA como participante de um coletivo não elimina a responsabilidade humana. Pelo contrário: torna a mediação docente ainda mais importante. É o professor quem organiza a atividade, escolhe quando a tecnologia contribui, provoca a comparação entre estratégias e cria condições para que o estudante justifique suas conclusões.

Uma boa experiência não pede apenas a resposta de uma IA. Ela convida o estudante a analisar a resposta, encontrar suposições, testar casos, construir contraexemplos e decidir se o resultado faz sentido. O erro deixa de ser somente algo a evitar e pode se transformar em objeto de investigação.

Um caminho responsável para refinar a proposta

O próximo passo do MathIAs não deve começar pela quantidade de funcionalidades. Precisa começar pela definição do problema pedagógico e das pessoas que a proposta pretende atender. A partir disso, vejo cinco frentes necessárias:

  1. Delimitar a experiência: escolher um conteúdo matemático, um público e objetivos de aprendizagem observáveis.
  2. Construir com os usuários: envolver estudantes, professores, pessoas surdas e outros públicos de acessibilidade desde o início.
  3. Validar o conteúdo: revisar explicações, representações, traduções e feedbacks com especialistas.
  4. Definir limites para a IA: tornar transparentes sua participação, suas fontes, seus erros possíveis e o tratamento de dados.
  5. Realizar um piloto: observar uso real, registrar barreiras e avaliar se a proposta favorece raciocínio, autonomia e participação.

Parceria exige propósito e critérios

A inteligência artificial não precisa ocupar o lugar do professor nem substituir o esforço intelectual do estudante para ser relevante. Seu potencial mais interessante pode estar em ampliar perguntas, tornar relações visíveis, favorecer comparações e abrir novas formas de expressão.

Para que isso aconteça, tecnologia, intenção pedagógica e cuidado humano precisam caminhar juntos. A ideia do MathIAs permanece como uma pergunta em construção: como criar um coletivo de seres-humanos-com-mídias que ajude mais pessoas a participar da experiência matemática com autonomia, criticidade e sentido?

Referências e leituras

Este tema também pode ser desenvolvido em palestras e projetos educacionais.

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